Category Archives: Brasil

25out/06
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Um brinde ao comandante


Durante visita ao Chile, na década de 70, Fidel Castro foi apresentado por Salvador Allende ao companheiro Canepa Finissimo Cabernet Sauvignon. Em poucas horas de conversa, tornaram-se amigos de infância e ficou combinado que um contêiner deste Canepa desembarcaria na Ilha de Cuba, para ajudar na construção daquela república de médicos, músicos e bailarinas não subserviente ao grande irmão do norte. Quis o destino que tal fato nunca acontecesse, pois o invejoso general Pinochet assumiu o poder em Santiago e, ato contínuo, cancelou a remessa. 

Muitos são os vinhos do Chile, todos de grande valor. Em sua escolha, Fidel mostrou grande sabedoria e integridade. Mesmo entre os Canepa, poderia ter optado por um Magnificum, orgulho maior da vinícola, o que teria sido um arroubo de vaidade não condizente com a pessoa e a proposta do líder. Também poderia ter optado por um Canepa Classico, este que se encontra facilmente em qualquer supermercado, mas teria sido uma demonstração barata de demagogia. Prevaleceu a honestidade, o caráter, o bom senso, o equilíbrio e a sutileza deste Canepa Finissimo. 

Não é um vinho popular. Custa perto de 70 reais, um quinto do salário-mínimo no Brasil ou duas vezes o salário de um médico em Havana. Sem julgamentos, pois acredito que estes somente cabem à população de Cuba, e sem perder a ternura jamais, com uma taça deste Canepa Finissimo, brindo à saúde do velho comandante. Com a mão esquerda. Sempre. Até porque, eu sou canhoto.

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Um brinde ao comandante

19out/06
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E pur si muove

Jacques Toutbon é um sujeito bem intencionado. E no entanto, atacam-no por defender a língua francesa dos anglicismos impostos pela tecnologia. Apesar de perseguido, o Ministro de le Culture, des Loisirs et de la Francophonie ostenta algumas vitórias. 

Por toda a França diz-se ordinateur para computador, le logiciel para software, le materiel para hardware e courrier electronique no lugar de e-mail. A Sony não deve gostar muito, mas walkman, na França, chama-se le balladeur. Por tais idéias, a moderna inquisição tachou o ministro de herege e deu-lhe o apelido de Jack Allgood. 

Solidário à causa, também eu sou perseguido pelo braço do santo ofício enológico por confessar publicamente o que consideram um pecado digno de se arder na fogueira: eu gosto de Beaujolais. Querem atirar ao fogo minha carteira de sommelier amador quando digo isso. Que joguem. Já está vencida e esquecida numa gaveta há muito. Nos restaurantes em que ela vale algum desconto no preço do vinho ou dispensa a cobrança da rolha, minha mulher defende a família. 

Não vejo motivo para que se considere menor um vinho que nasce no região que faz fronteira com os célebres vignobles de Chateaneuf du Pape e os ainda mais célebres pinot noir de Beaune. Se fosse em La Mancha seria tudo um terroir só. Dizem que é por causa da Gamay, a prima-pobre das uvas, com seu corpo esquálido e seu subdesenvolvido aroma de banana. 

Não vejo menor corpo num Moulin-a-Vent do que em qualquer outro produto da Borgonha e adjacências. Mesmo este Joseph Drouhin, que não é de produtor mas sim de um negociante, provou o valor de um grand cru de beaujolais. E custou a metade de um nouveau e quase o mesmo preço de um villages. Pelo menos aqui no Brasil. 

Enquanto na França com poucos euros compra-se um beaujolais recém engarrafado, aqui não sai por menos de cem reais. Ou seja, heresia cometem os devotos da moda que todos os anos, religiosamente, pagam mais de trinta euros por um vinho de seis. 

E é tão somente por essa razão que, como deseja o santo ofício, eu retiro o que disse sobre gostar de beaujolais. Mas não por falta de corpo, aroma de banana ou qualquer defeito que queiram atribuir a este vinho. Mas pelo custo do marketing. Ou, como quer o ministro Tiago Tudobom, o valor extra que se cobra pela mercadologie.

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E pur si muove

10out/06
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Carpe diem, carpe vinum


Numa manhã sem grandes acontecimentos meu avô despediu-se de minha avó e faleceu pouco antes da hora do almoço. Não chegou a completar um século de existência, como todos esperávamos, mas chegou bem perto. Entre os seus pertences havia duas garrafas de vinho. 

Guardadas no fundo de um armário há pelo menos trinta anos, ambas foram a mim confiadas por minha avó. Assim, acabei herdando um porto Sandeman Partner’s e esta magnífica garrafa de Concha y Toro Chilean Riesling cosecha 1974. Fazer o quê com um riesling de 1974 em 2006? Jogar no lixo, diriam enólogos e enófilos com o pragmatismo que lhes é peculiar e ainda acrescentariam, a título de erudição, que branco desta idade só um Montrachet e olhe lá. 

Abri a garrafa, evidentemente. A cor variava entre o alaranjado de um chá inglês passado do ponto e o ocre ferruginoso das terras de Siena. O aroma, alguma coisa indefinida e ligeiramente ácida sem no entanto aparentar vinagre. Provei. Naturalmente, não havia mais vinho naquela garrafa, tampouco sua sombra ou degeneração. Repousava ali um retrato em sépia de grandes realizações não acontecidas. Na boca, percebia-se facilmente o gosto meio doce meio amargo de tudo aquilo que poderia ter vindo a tona de maneira esplendorosa e, no entanto, não passou da condição de potência. 

Vinhos que morrem na garrafa são como paixões que não se concretizam porque uma das duas partes chegou atrasada ao que teria sido o encontro de suas vidas. Vinhos devem ser devidamente degustados no ponto ideal de sua curva, no estado de maturidade, depois da juventude e antes da decrepitude, diriam aqueles outros, os pragmáticos. 

Digam o que disserem. Em um único gole daquele que um dia foi um concha y toro, podia se experimentar, ainda que por breve instante, o vislumbre do quão espetacular teria sido beber daquele chilean riesling cosecha 1974. Não importa se na juventude, maturidade ou em que ponto de sua curva. Mas sim, numa daquelas manhãs sem grandes acontecimentos, ali por volta do meio-dia, na companhia do velho.

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Carpe diem, carpe vinum

25set/06
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Do Zeta ao Aleph

Distraído, segurei a garrafa. Pesada, de vidro espesso. No rótulo monocromático, além da cor do metal argentino, destacava-se a letra Z, de Zuccardi, tradicional família estabelecida em Mendoza. Meu conhecimento em relação a seus vinhos não passava da letra Q. Q Malbec, Q Cabernet Sauvignon, Q Merlot e o Q Tempranilllo. Todos varietais, ao contrário deste Zeta, 54% Malbec, 46% Tempranillo. Curioso, confesso que queimei as duas primeiras etapas, visão e olfato, e fui direto ao paladar. 

Pobres daqueles que descrevem um vinho como uma “combinação de complexidade e elegância”, e ainda se atrevem a escrever no contra-rótulo da garrafa tais palavras desprovidas de qualquer sentido. Melhor seria estampar ali uma imagem. Qualquer uma das muitas que vi naquela prova. 

Tateando no escuro daquele labirinto de sensações, tive a impressão de ver se aproximar o brilho luminoso do Aleph, o ponto de onde se avistam todos os outros. Ali, onde os quatro marcos cardeais fundem-se, vi a espada, o tigre, o sendero bifurcado e o espelho. Vi o cego na mesquita de Surakarta, vi o jaguar que espreitava no escuro da torre e o astrolábio que o persa Nadir Shait mandou atirar ao mar. 

Vi os raios de sol refletidos no mármore dos mil e duzentos pilares da mesquita de córdoba, vi o nascer da aurora e o despertar dos magos. Vi passar o ponto do qual não era mais possível retorno e pude perceber que, a partir dali, física e metafísica, literatura e filosofia, realidade e ficção, não passavam de uma única singularidade. 

Muito mais coisas vi e, quando já acreditava haver nada mais a ser visto, avistei o pequeno riacho e os dois velhos que conversavam à sua margem. Borges dizia a Homero que cada um de nós se define para sempre em um único instante de sua vida. Instante esse em que, cada qual, se encontra eternamente consigo mesmo. Homero respondia declamando as linhas finais do Soneto do Vinho, do próprio Borges: ” Vinho, ensina-me a arte de ver minha própria história, como se esta já fora cinza na memória”. Nessa hora, o velho brujo veio em minha direção e ofereceu-me o ombro como se, naquele lugar, fôra eu aquele que não enxergava. 

Como um fio de Ariadne, o velho me conduziu de volta por aquele labirinto. Poetas, como os cegos, enxergam no escuro. Poetas cegos, enxergavam duas vezes mais. Durante aquele trajeto, reconheci ao longe a cúpula dourada da cidade dos imortais, os minaretes nevados dos Andes, Buenos Aires e a Plaza de Mayo. 

Numa esquina da Calle Florida, Borges despediu-se e desapareceu no labirinto formado pelas estantes de uma daquelas muitas livrarias. Percorri sozinho o que restava do caminho de volta e, ao abrir os olhos, vi diante de mim uma taça ainda cheia. 

À mulher amada que me perguntava o que achei daquele vinho, respondi fantástico. E nada mais diria sobre o Zeta naquela noite.

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Do Zeta ao Aleph

01set/06
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E o resto é silêncio


Vinhos ingleses são como brujas. Jo no creo, pero que los hay, los hay. Indícios de sua existência remontam ao mito de Maeve, deusa guerreira que ofertava aos seus pretendentes uma taça de tinto, rubro como seu próprio sangue. Somente àqueles que bebiam do seu vinho era concedido o privilégio de se tornarem senhores dos mistérios femininos e, por tabela, do trono da ilha. 

Foi preciso que o grande Julius Caesar ali chegasse para apagar o fogo de Maeve e jogar o feminismo celta na fogueira, a mesma que muito mais tarde estaria reservada aos sutiãs. Em compensação, trouxe junto às suas hostes as uvas do mediterrâneo. 

Tais uvas caíram no gosto dos ingleses. Feito com malvasias originárias da Ilha de Creta, o vinho da Madeira era, no período de Shakespeare, mais popular do que uma black guiness. O negro Otelo que o diga. Por culpa do vinho, Desdêmona caiu de amores pelo mouro de Veneza. Duque traidor, o irmão mais esperto de Eduardo IV escolheu a morte por afogamento num tonel de vinho madeira. 

Dado aos encantos da boa mesa, o bufão Falstaff vendeu a alma ao diabo numa sexta-feira santa em troca de um bom cálice deste vinho. E, tragédia das tragédias, com vinho envenado, Claudio, rei interino da Dinamarca, acidentalmente mata Gertrudes, esposa do falecido rei, no lugar de seu verdadeiro destinatário, o príncipe Hamlet que, eternamente indeciso, acaba morrendo no final. 

E o resto seria silêncio, não fosse a iniciativa de alguns poucos súditos da Rainha Vitória, que teimaram em produzir vinho no império onde havia terroirs de todos os tipos e insolação vinte e quatro horas ao dia. Não obstante as terras frias e chuvosas serem mais adequadas à produção do malte, não obstante a providencial invenção do vinho fortificado português ter permitido que se conservasse por muito mais tempo o vinho adquirido na região do Porto, o mito em torno de um vinho nascido e criado na ilha persiste. 

Dizem que há quem tenha encontrado um bom vinho inglês. Para degustá-lo prepararam, inclusive, uma mesa com design democrático, sem cabeceiras. O problema é que já se passaram mais de dois mil anos e aqueles que foram procurar um cálice especial para degustá-lo até hoje não voltaram.

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E o resto é silêncio